Cessação do Consumo de Drogas

Publicado por gmcosta, em maio 4th, 2008

Tratamento para a Cessação do Consumo de Drogas em Meio Hospitalar Especializado

Quando devemos internar uma pessoa para tratamento da dependência? Quando ela mesmo solicitar…Claro que importa saber o motivo da sua solicitação, mas apenas o motivo manifesto como, por exemplo, o insucesso da cessação do consumo em ambulatório, as condições de vida, a necessidade de fazer uma parada estratégica, o sentimento de estar em perigo. A urgência dos pedidos de hospitalização são com muito mais frequência psicológicas do que real: ela traduz uma crise pessoal, o pânico do meio em que vive, por vezes a pressão dos traficantes, da polícia ou do sistema judiciário. Essa urgência aparente, as vezes manifestada com violência, está relacionada com a humilhação, com a constatação de insucesso feita por um indivíduo: a droga ajudou-o a viver, a ser diferente, mas não foi além de uma solução provisória. Ele não foi mais forte que os outros e já não consegue livrar-se dela sozinho.

No entanto, qualquer que seja a natureza da urgência, é muito importante observar dois princípios fundamentais:

  • uma resposta padrão-rápida, ou mesmo imediata;
  • um tempo de espera pela internação que não pode ultrapassar uma semana. Depois desse período, para quem sobrevive no dia-a-dia do inferno das ruas, a perspectiva da parada do uso perde qualquer tipo de realidade concreta.

Se esse tempo de espera existir, ele pode ser aproveitado para reforçar a relação de confiança com a pessoa, para lhe garantir o momento e a condição em que ocorrerá a internação, para continuar a informá-lo a respeito dos meios que existem à sua disposição, tanto para dar resposta às dificuldades do momento, quanto para amarrar um possível projeto terapêutico.

Quanto ao terapeuta, recorrer à hospitalização é também uma admissão dos seus limites. Nem sempre basta escutar o paciente.

Em certos casos, uma primeira internação, tem, sobretudo, o valor da observação que ela permite fazer: As mudanças repentinas (em algumas horas ou poucos dias) traduzem a qualidade peculiar de um mal-estar permanente que os efeitos da droga na vida cotidiana tinham por função esconder. É somente no curso dessa prova que se é possível saber se o doente possui ou não recursos para respeitar as normas de uma instituição, o contrato, as regras de convivência mínimas para um trabalho em grupo. No contrato para a prestação desse tipo de serviço, a partir da sua admissão para a internação, deve valer o respeito pelas pessoas, pelo espaço físico e pela vocação terapêutica do local, que vai interditar os “esquemas” de tráfico ou consumo de substâncias no local, bem como a violência, quer dirigida a si próprio ou a outros. Na maioria dessas clínicas vão existir a interdição de saídas, de visitas, do uso de telefones celulares, a revista no momento da entrada, bem como das pessoas que visitam o paciente no momento adequado para isso.

A duração das internações via SUS no Brasil, normalmente não ultrapassam 30 dias. Se o paciente estiver internado em nível particular o tempo de permanência pode ser negociada de acordo com a disponibilidade financeira e o nível de comprometimento do indivíduo com a substância a qual é dependente. Dificilmente um paciente baixa o hospital totalmente limpo. Normalmente isso não acontece. A procura pela internação dá-se principalmente num momento de uso abusivo ocorrido durante vários dias com estragos consideráveis (gastos excessivos, acidentes etc). Para os dependentes de drogas pesadas dormir o dia todo no início da internação é a opção preferível quando o consumo era de cocaína, crack ou anfetaminas. De uma forma geral quanto maior for o envolvimento da equipe terapêutica com o paciente menos imposição das regras será feita de forma rígida.

Nisso reside uma das razões da existência de equipes especializadas no tratamento hospitalar da dependência química. A disponibilidade total e completa. Tudo porque, para o dependente químico, é na hora a hora, no dia após dia, que é preciso resistir e viver um corpo que, durante muito tempo, esteve ausente, anestesiado, esquecido. O pânico, os momentos de angústia são bem conhecidos da equipe que lida com o dependente. A angústia da chegada da noite, lembrando dos momentos em que era preciso penar, procurar a “mercadoria”. O pânico nas horas em que lembra que o “entregador” poderia estar lá, a poucos metros da parada de ônibus. Ao deixar-se cada dependente internado ser livre para abandonar a instituição em qualquer ponto do tratamento, evita-se a perigosa segurança de “ficar preso do lado de fora”. Essa dificuldade dos momentos de dúvida é consequência de uma experiência de liberdade. Só eles podem fazê-lo.

Durante o dia, durante a noite, os técnicos de enfermagem falam, ouvem, participam de quase todas as atividades. Assim evitam a formação de pequenos grupos, a formação de “esquemas”, a geração de uma atmosfera de casa sem comando, que são tentações permanentes do grupo, visando fugir às angústias de cada uma das pessoas.

A instituição hospitalar tem uma função de restabelecer os limites, ou seja, uma função “paternizante”. Os “despejos” (expulsões por violência, tráfico, consumo de drogas, etc) e os “castigos” (interdições impostas pela equipe durante o tempo de internação com tempo variável) cumprem uma função terapêutica no contexto de um tratamento. As transgressões são fequentemente reproduções ou repetições de comportamentos que faziam parte de um modo de vida. As sanções não podem ser entendidas como emanações de qualquer espécie de programa de punição-recompensa mas sim como uma forma de estabelecer limites e deixar claro o tipo de comportamento que se espera do paciente dentro da instituição. Entretanto deve-se manter um estado de alerta para dar altas por indisciplina na tentativa de manter o equilíbrio e o conforto da equipe terapêutica.

Para uma determinada pessoa, é possível avaliar o grau de sucesso de uma internação para cessação do consumo de drogas? A experiência clínica ensina as equipes a dar conta do seu trabalho em termos moderados, relativos e subjetivos. Para a equipe, uma internação terá sido suficientemente boa se permitiu a pessoa viver a experiência de uma mudança possível, ou de outra forma, se a pessoa sai desse período de internação considerando que pode se dar um tempo, utilizando-se de diferentes meios de acompanhamento, para voltar a colocar-se numa situação de escolha pessoal: viver o cotidiano de forma natural, conseguir encontrar um certo ritmo de vida, podem constituir uma fase importante.

A maioria das equipes de tratamento verificam um fenômeno constante: a maioria das internações são por recaídas, ou seja, re-internações. As reuniões diárias com os dependentes que variam de acordo com o local e a proposta de tratamento, revelam frequentemente a heterogeneidade do grupo sob o ponto de vista de cada dependente internado.

Durante uma internação, deverá ser repassada, com bastante ênfase e técnica adequada uma mensagem essencial: a recaída é possível e, aconteça o que acontecer, é importante não dramatizar o fato, dando-se o direito de tentar novamente uma recuperação. Os internos aprendem assim, pouco a pouco, a renunciar certas crenças, tais como o mito da “força de vontade”, e evitar a impregnação de uma culpa ligada violação de um período de abstinência.

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2 Comentários para “Cessação do Consumo de Drogas”

  1. Walmir T. Sant'Anna disse:

    Sr. Evander!
    É muito comum os familiares se perguntarem a respeito de qual é a sua participação “durante” o tratamento de seu ente querido. Portanto, gostaria de saber qual é vossa opinião a esse respeito.
    Muito obrigado pela atenção e carinho!
    Muita paz e luz…
    Walmir T. San’Anna

  2. urgente disse:

    quando a pessoa nao quer se trata adianta fazer desintoxicao numa clinica fexada

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