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Desde cedo conhecemos os males que os entorpecentes podem causar. Pais e professores sempre alertaram preventivamente, sobre o perigo que as drogas trazem: danos à saúde e à personalidade que podem se tornar irreversíveis ou gerar seqüelas irreparáveis. Nos casos extremos, a degradação é tal que o usuário acaba se tornando um pária, um indigente. Nesse sentido o velho ditado torna-se verdadeiro: “Se fosse bom não se chamava droga”.
Apesar dos avisos, muita gente acaba entrando no mundo das drogas. E grande parte dessas pessoas não volta. Não é incomum ficar sabendo de um velho colega dos tempos da escola que se perdeu pelos caminhos do álcool ou das drogas. Mas o que realmente leva alguém a trilhar esse caminho? Todos os dependentes químicos sem exceção revelam o desejo de nunca ter usado drogas. Todos têm consciência de quanto sua vida foi prejudicada pelo uso abusivo de entorpecentes. Vêem a si mesmos como marginalizados e se envergonham dessa condição.
A sociedade de um modo geral fecha as portas para o dependente químico, rotula-o, afasta-o do seu seio. O drogadito se marginaliza e a sociedade o transforma em marginal. É um jogo duplo.
Para um dependente, nada mais tem valor do que a droga que elegeu para ser seu deus. Sua vida acaba girando em torno dela. E quanto mais se consome, mais se quer. Parece não haver nenhum nível de satisfação. Nem saída.
De acordo com Freud, o que atrai o indivíduo às drogas é o “instinto de morte” (thanatos), isto é, um desejo inconsciente de morrer que toda pessoa tem. De fato, a morte pode se apresentar como solução para muitas vidas sofridas e miseráveis, uma promessa de libertação das mazelas da existência. É a busca do nada, do cessar que define o princípio budista do nirvana – o estado de vacuidade que se atinge com a iluminação. Para Freud, a evidência do instinto da morte – e da idéia de nirvana nele contido - está em nosso desejo de paz, em nosso escapismo presente até mesmo em atividades como a leitura e o cinema e na nossa atração por álcool e drogas. Assim, para o pai da psicanálise, as pessoas entram no mundo das drogas através da porta aberta pelo desejo de fuga, de libertação dos problemas do mundo. Em última instância, pelo desejo da morte.
Outro psicólogo influente, Erich Fromm parte dos mesmos pontos que Freud: o princípio nirvânico e a morte. No entanto, Fromm não fala de um desejo de morrer, mas, sim, do temor ante sua certeza e a angústia que isso causa. Temos consciência do curto período de vida. Sabemos que vamos morrer antes daqueles que amamos ou estes antes de nós. Ao viver numa condição de solidão e de separação do mundo e dos outros, isso provoca uma ansiedade constante. Alguns a experimentam em maior grau; outros, em menor. Mas a consciência da separação está em todos e, segundo Fromm, “a mais profunda necessidade do homem é a de superar sua separação, de deixar a prisão em que se está só”.
Há diversas formas de tentar suprimir a ansiedade gerada pela consciência da separação. O sexo, no qual se busca eliminar a solidão por meio da união momentânea com o outro, e a religião, em que ocorre a fusão com o divino, são algumas delas. Outro meio de afastar a ansiedade ocorre com o uso de alucinógenos. Num estado alterado de consciência, “o mundo externo desaparece e, com ele, o sentimento de estar dele separado”, afirma Fromm. O problema é que, ao buscar refúgio em álcool e drogas, os usuários se sentem ainda mais separados quando termina o efeito e, por isso, são levados a recorrer a eles com freqüência e intensidade cada vez maiores – o caminho do vicio.
A LONGA E TORTUOSA ESTRADA
A dependência é considerada uma doença, não importa qual seja o seu agente causador – maconha, cocaína, crack, álcool, chocolates ou sexo. Mas a dependência pode ser aprendida. Quando uma pessoa usa uma droga psicoativa e o efeito por ela produzido é de alguma forma agradável, esta reação adquire, para aquela pessoa, um caráter de recompensa. De acordo com estudos experimentais, todos os comportamentos que são reforçados por uma recompensa tendem a ser aprendidos e repetidos. As sucessivas repetições tendem a fixar não só o comportamento que conduz à recompensa, mas, também, os estímulos, as sensações e as situações indiferentes eventualmente associados a esse comportamento. Nesse contexto, certos lugares, músicas ou pessoas desencadeiam no usuário a compulsão de usar a droga por ele eleita.
A dependência pode ter ainda causas genéticas. A influência de fatores genéticos que levam ao álcool é demonstrada por Kenneth Blum em seu livro “Alcohol and the Addictive Brain”, no qual apresenta os resultados de décadas de estudos sobre genética e alcoolismo. Segundo Blum, filhos de alcoólatras têm possibilidades quatro vezes maiores de se tornarem alcoólatras do que os filhos de não alcoólatras, mesmo que separados de seus pais biológicos ao nascer e educados por pais adotivos não alcoólatras.
Muitas pessoas que experimentam drogas participam de uma subcultura em que desenvolvem uma arte, linguagem e moda próprias. Nessas subculturas, as drogas têm destaque. Muitos usam alucinógenos de forma recreativa, para exaltar sensações físicas e sensoriais de natureza estética ou erótica. Alguns usuários de certas drogas afirmam que, ao usar a substância eleita, a música soa melhor, as cores são mais brilhantes e o orgasmo se torna mais intenso. Outros, porém, usam drogas por perceberem nelas um elemento de afirmação. Para quebrar as regras em busca de se auto-afirmarem, muitas vezes esses indivíduos acabam usando ou se envolvendo com drogas.
É claro que existem motivos mais prosaicos que levam as pessoas a consumirem drogas e que não levam, necessariamente à dependência. Há os que usam drogas para reduzir dor, insônia, cansaço ou superar necessidades fisiológicas como o sono e a fome. Nos Andes, por exemplo, até hoje os nativos mascam folhas de coca para aumentar a resistência ao frio e a fome. Também é conhecido o uso de certas substâncias alucinógenas em rituais mágicos e religiosos. Há diversos relatos sobre o uso de cactos e fungos por diversas nações indígenas, em ocasiões especiais, como uma forma de acessar deuses e antepassados. Xamãs do mundo todo usam drogas durante suas atividades curativas. No entanto, nesses casos o uso dessas substâncias é feito em situações especificas, culturalmente aceitas e reconhecidas e que não comprometem o desempenho social dos seus participantes.
Fonte: Revista Mundo em Foco.