A maioria dos usuários se simpatizantes defende a maconha, sustentando que é uma “droga leve”, “natural”. No entanto diversas pesquisas revelam que a realidade é outra. A maconha pode, sim, fazer mal. Uma parcela significativa, entre 6% e 12%, das pessoas que experimentam acaba desenvolvendo o uso compulsivo da maconha. Embora o THC, a substância ativa da cannabis, não cause dependência, há pessoas com potencial para desenvolver o vício.
A alucinação provocada pela maconha vem do THC, sigla do delta-9-tetrahidrocanabinol, o princípio ativo da planta. Os efeitos físicos imediatos mais característicos são os olhos vermelhos, ou, na linguagem médica, hiperemia das conjuntivas, que ocorre por causa da dilatação dos vasos sanguíneos da conjuntiva. Outra resposta física do THC é a xerostomia, isto é, a boca seca. Além disso, a maconha também provoca taquicardia: de 60-80 batimentos cardíacos por minuto pode-se alcançar rapidamente, de 120-140 batimentos ou até mais.
A sensação de prazer proporcionada pela maconha acontece porque o princípio ativo da droga é, por um acaso incrível, muito parecido com um importante mensageiro químico do cérebro. O THC tem estrutura química semelhante à das substâncias que controlam a passagem de sinais entre as células nervosas, os neurônios. Esse sistema de mensagens do cérebro foi descoberto graças às pesquisas sobre maconha e, em homenagem à droga, foi batizado de sistema endocanabinóide, (ou seja, o da “cânabis produzida dentro” do corpo). Esse sistema atua em quase todas as regiões do cérebro, mas o prazer gerado pela droga vem do fato de que ele atua sobre o córtex
(a sede da consciência e da razão), a amídala (ligada às emoções) e o tronco cerebral (responsável pela sensação de dor). É por isso que os usuários relatam experimentar tranqüilidade e bem-estar durante o consumo – as mensagens químicas ligadas à ansiedade ou à dor são barradas pela ação da droga sobre o sistema endocanabinóide.
Os efeitos psíquicos dependem da qualidade da maconha e da sensibilidade de quem fuma. Uma pessoa acostumada a fumar todos os dias, por exemplo, tende a ser menos sensível do que uma que usa esporadicamente. Para a maioria, os efeitos imediatos são uma sensação de bem-estar, calma e relaxamento. É como ter vontade de rir, e mesmo as idéias mais absurdas soam como profundas descobertas filosóficas. Alguns experimentam, porém, efeitos desagradáveis. Essas “bad trips” podem incluir sensações de náusea e angústia, tremores e medo de perder a cabeça.
Outra característica do efeito refere-se à maneira equivocada de se perceber o tempo e, menos comum, o espaço. A concentração e a memória imediata (ou de curto prazo) se dispersam. Tem-se a sensação, por exemplo, de que passaram horas quando, na realidade, foram apenas alguns minutos. Dessa forma, fica impossível decorar uma informação numérica, um número de telefone ou da conta bancária. São as chamadas “marcadas”. Pessoas sob a ação do THC têm dificuldade para executar tarefas que demandam atenção e discernimento, tornando atividades como dirigir um perigo em potencial quando se está sob a influência da maconha.
Muitos especialistas chamam atenção para o fato de que a erva está ficando mais potente. Ao longo dos últimos 40 anos foram feitos aperfeiçoamentos genéticos, cruzando plantas com alto teor de THC. Surgiram, assim, variedades fortíssimas, como o Skank (ou skunk). Além de mais potentes, essas espécies geneticamente modificadas podem, em tese, aumentar os problemas ocasionados pelo uso contínuo da planta.
USO CRÔNICO
A utilização costumeira do THC leva a um quadro crônico. Pesquisas realizadas com usuários que fumavam mais de um baseado (nome dado ao cigarro de maconha) por dia revelam tendências negativas. Uma das comprovações tem a ver com a memória de curto prazo – aquela que permite absorver uma informação nova no momento presente – e a atenção, que ficam realmente prejudicadas. Vale avisar, porém, que esses traços só se apresentam com o uso contínuo e em grandes doses. Do contrário, deixar de fumar é suficiente para que essas funções do cérebro se refaçam. Com o uso continuado, vários órgãos podem ser afetados, e os pulmões são os mais atingidos. A irritação contínua pode levar a problemas respiratórios, como bronquite.
O argumento de que a maconha é “natural” cai por terra mediante os resultados de um relatório divulgado pela Fundação Britânica do Pulmão (BLF, na sigla em inglês). De acordo com o documento, fumar três cigarros de maconha tem o mesmo efeito nos tecidos pulmonares que 20 cigarros normais. O relatório demonstrou que a maconha e o tabaco contêm quantidades equivalentes de substancias tóxicas, além de nicotina. A diferença, porém, está na maneira como a droga é consumida. Normalmente, o usuário de maconha tem comportamentos mais arriscados que o do cigarro: traga mais profundamente, não usa filtro e segura a fumaça por mais tempo no pulmão (o que, aliás, segundo os cientistas, não aumenta o efeito da droga). “Isso resulta em mais dióxido de carbono e alcatrão entrando nos pulmões”, afirma Helena Shovelton, presidente-executiva da BLF, em entrevista à revista New Scientist. “A quantidade de fumaça que chega ao pulmão com a maconha é dois terços maior e ela permanece nas vias respiratórias, em média, quatro vezes mais tempo”, completa.
A falta de efeitos nocivos imediatos derivados do uso da maconha leva muitos a pensarem que a planta não representa riscos à saúde. Entretanto, pesquisas sobre a erva ainda são poucas e recentes. Em poucos anos, talvez apareçam casos de câncer de pulmão ocasionados pela maconha.
Outro efeito físico resultante do uso crônico da maconha tem relação com a testosterona, hormônio masculino que confere ao homem maior quantidade de músculos, voz mais grossa, barba e que também é responsável pela fabricação de espermatozóides. É sabido que a maconha diminui consideravelmente a produção de testosterona. Conseqüentemente, o usuário passa a apresentar um quadro conhecido como oligospermia, isto é, queda no número de espermatozóides no líquido espermático – o que pode resultar em infertilidade. No entanto, esse efeito desaparece quando a pessoa deixa de fumar maconha.
O uso da maconha por grávidas pode resultar, também, em má-formação do feto. Um estudo realizado na Suécia pela prestigiosa revista Science, demonstra que mulheres que consomem maconha durante a gestação podem ter filhos com cérebros mal desenvolvidos. O trabalho mostra que a droga atrapalha as conexões entre os neurônios em uma fase crítica da formação cerebral. Conforme crescem as crianças podem ter dificuldade de desenvolvimento. “Se há uma mensagem a ser passada por este trabalho, é a de que as grávidas não devem jamais consumir maconha ou qualquer composto que contenha maconha em qualquer momento da gravidez”, afirma o líder da equipe que realizou o estudo, Tibor Harkany, do Instituto Karolinska, em Estocolmo.
Segundo Harkany, a pesquisa apresenta dois resultados importantes. O primeiro é um maior conhecimento das ações da maconha no cérebro. “Temos uma compreensão limitada das conseqüências da maconha, e entender como ela afeta um cérebro em desenvolvimento pode ajudar bastante a compreender como age em um cérebro adulto”, diz ele. O segundo resultado refere-se a demonstração de um mecanismo fundamental da formação do cérebro ainda no útero da mãe.
Além dos efeitos físicos, há, ainda, os problemas psíquicos causados pelo uso crônico da maconha. O uso contínuo, por exemplo, interfere na capacidade de aprendizagem e memorização e pode induzir a uma síndrome amotivacional, ou seja, um estado em que o usuário não sente vontade de fazer nada. Tudo fica sem graça e sem importância. A única coisa que motiva é a maconha. Nessa situação de dependência, algumas pessoas passam a organizar a vida em torno da droga. Assim, para fazer qualquer atividade – cinema, teatro, show ou até mesmo um trabalho profissional – é preciso “fumar um baseado” antes. A síndrome amotivacional é especialmente grave entre adolescentes. Eles estão em fase de formação da personalidade, de tomar decisões importantes que irão refletir na sua vida adulta, e pular ou prejudicar essa fase pode ser muito desastroso.
Por último, mas nem por isso menos grave, o uso crônico da maconha pode antecipar ou agravar uma doença mental existente. Em um estudo recente, uma equipe da universidade americana de Yale administrou a substância ativa da maconha, o THC, em grupo de voluntários. Mesmo em doses relativamente baixas, eles descobriram que 50% dos voluntários saudáveis começaram a mostrar sintomas de psicose. Aqueles que tinham histórico de sintomas psicóticos mostraram-se ainda mais vulneráveis.
Fonte: Revista Mundo em Foco.
ajuda me a para de fuma maconha
julho 12th, 2010 em 8:45 pm