A DEPENDÊNCIA QUÍMICA E A EVOLUÇÃO DAS CONCEPÇÕES
A história das toxicomanias não pode se resumir à das drogas. È necessário fazer uma interrogação sobre a construção social da doença (a toxicomania, o alcoolismo ou as adicções); esta é talvez uma das formas de regulação, proposta pela sociedade, da relação entre o ser humano e as substâncias psicoativas e, de um modo geral, com as fontes de prazer que poderiam se transformar incontroláveis.
Com Louise Nadeau, professora de Psicologia da Universidade de Montreal podemos distinguir muito esquematicamente alguns modos de compreensão do abuso, da moderação e da dependência, que correspondem a longos períodos da história da humanidade.
MODELO MORAL OU RELIGIOSO
Vimos que as drogas, remédios ou venenos foram inicialmente um meio de abordar ou interpelar as potências superiores, de chegar ao sagrado.
Antes da Era Moderna, a maneira natural de abordar a moderação, os abusos e os excessos de todas as espécies foi sem dúvida uma perspectiva religiosa: os padres e depois os médicos (que exerciam uma arte sagrada), tinham por tarefa prescrever ou extinguir, de modo ritual, o uso de drogas. Neste quadro, a moderação sob todas as suas formas é um vício ou um crime, em todo o caso um pecado, um desperdício dos dons divinos. O tratamento do abuso é, portanto o do sacrilégio e releva a justiça… A fonte mais profunda da proibição das drogas tem sem dúvida a ver com estes laços eternos entre as drogas e o sagrado; daí a interdição do seu uso fora dos quadros prescritos pela religião. Toda uma parte da filosofia da Grécia Clássica, de Platão aos Estóicos passando pelos Epicuristas, tende a promover a moderação e o autocontrole.
Num contexto moderno, democrático, o de um mundo desencantado, a questão moral voltará a pôr-se com acuidade: os tabus religiosos serão substituídos pela moral do esforço, do trabalho e do mérito, que se opões às facilidades das vias rápidas, quer se trate de prazeres artificiais, de jogo de azar, de sexo ou de alimentação.
MODELO UNIFATORIAL DA DOENÇA
Com muitos autores norte-americanos, podemos admitir que o primeiro modelo de doença de uma adicção remota a 1785, com o trabalho do médico americano Benjamin Rush referente ao efeito das bebidas espirituosas no corpo e na alma. A embriagues e os efeitos prejudiciais eram conhecidos desde há muito tempo, mas foi no fim do século XVIII que se torna possível falar disso claramente em termos de doença.
A idéia de um processo austero ligado à ação das bebidas espirituosas constituía a primeira visão médica de uma toxicomania pensada a partir de então: no romper da modernidade, com o surgimento da era industrial, da democracia e do individualismo, aparece este modelo das patologias da dependência que nos coloca hoje tantos problemas. A partir daí pode se suceder à compaixão, à punição o tratamento ou a readaptação. Nesta concepção o mal está de alguma maneira contido na substância que desencadeia o processo mórbido. Estamos num modelo do tipo intoxicação (onde os nomes em “ismo”, como o saturnismo): o alcoolismo crônico (M. Huss) receberá seu nome em meados do século XIX, as toxicomanias no final deste mesmo século.
Que o produto tóxico seja a causa do mal arrasta logicamente a idéia da erradicação deste produto: na América do Norte, as campanhas proibicionistas levaram em 1919, a proibição do consumo de álcool. Nestes movimentos históricos, o que está em questão é ao mesmo tempo a lenta separação entre a medicina e a religião, e a apropriação por parte da medicina de problemáticas que, até aí, eram vividas principalmente como sendo de ordem moral ou religiosa.
MODELO BIFATORIAL
A construção da toxicomania como doença não pode, portanto ser simplesmente concebida como o efeito dos progressos da ciência, como a descoberta pela medicina de uma problemática até então ignorada. Ela seria o produto do progressivo abandono de uma visão moral e religiosa que, sob o Antigo Regime, prevalecia sobre qualquer outro quadro explicativo.
Mas esta autonomia da clínica médica em relação às perspectivas religiosas não impede a persistência de considerações morais, no próprio interior do discurso médico. Ao longo de todo o século XIX, a corrente higienista mostra, com efeito, como a aliança do poder, da ciência e da moral dá aos médicos o papel que o sociólogo H. Becker designará como o de “empresários da moral”: pessoas que operam para o bem de todos, militando para fazer adotar como norma, regra ou lei as suas próprias concepções do que é bom.
Antes do higienismo – através da ação de Pasteur e de Koch – se tornar um assunto de saúde pública, a fronteira entre a ciência e a moral nem sempre foi muito clara…Supondo que ela o seja hoje em dia, particularmente no domínio que nos ocupa.
A sorte dos doentes, submetidos ao olhar médico tratados do exterior de uma doença que lhes escapa, não se tornou forçosamente muito mais invejável. Por exemplo, a Psiquiatria do século XIX e da primeira parte de século XX é fortemente marcada pela teoria da degenerescência, proposta B.A. Morel em 1857. Nesta concepção, certos indivíduos são mais fracos que outros, no plano físico, mental e moral ao mesmo tempo. Esta fraqueza constitucional é transmitida por hereditariedade e agravada por causas exteriores, entre as quais as infecções como a tuberculose e as intoxicações como o alcoolismo. As “doenças sociais” como a sífilis, o alcoolismo, a tuberculose e depois as toxicomanias, são, portanto assuntos de “degenerados”: sendo a sua descendência suspeita a priori de manifestar transtornos ainda mais graves, sendo que numerosos autores da época consideravam-nos um perigo para a raça ou a nação.
Apesar do progresso que constitui e da sua imensa importância histórica, este grande modelo explicativo da degenerescência (e a sua persistência através da heredossífilis ou do heredoalcoolismo) mostrará que o conceito da doença não permite a um discurso médico opor-se a uma visão moral: ambos estão intrincados e encontram-se muitas vezes nas propostas mais radicais de tratamento das toxicomanias. A coerção – o encarceramento -
Com o objetivo inicial de preservar a sociedade do contágio, aplica-se tanto a certos doentes como aos delinqüentes. A degenerescência é sem dúvida o primeiro grande modelo bivariado, no sentido de que dá um lugar ao mesmo tempo ao indivíduo e à substância.
Na América do Norte, é ao movimento dos Alcoólicos Anônimos que se atribui desde 1934 a difusão de um tal modelo de doença. Segundo este organismo, o alcoolismo é uma doença comparável a uma alergia: esta doença desenvolve-se como uma intoxicação, mas afeta apenas os indivíduos predisposto, sensibilizados. É preciso notar que é em 1933 que o consumo de álcool foi novamente autorizado nos EUA: a filosofia dos Alcoólicos Anônimos representa, portanto um meio de perseguir os objetivos da proibição, mas aplicando-a apenas aos indivíduos em questão.
MODELO TRIFATORIAL: PRODUTO, PERSONALIDADE, MOMENTO SOCIOCULTURAL.
No início da década de 1970 foi de novo posta em questão uma visão estritamente médica ou puramente psicológica das dependências e do alcoolismo, criticando aquilo que os americanos chamam modelo de doença. Esta crítica veio em parte do próprio campo científico, de obstáculos epistemológicos que, segundo L. Nadeau, teriam conduzido a uma crise paradigmática no campo do alcoolismo; com ele, podemos citar entre os elementos desta mudança de concepção:
- os estudos de segmento que mostram que uma certa percentagem de indivíduos dependentes conseguiam tornar-se consumidores moderados e controlados; o dogma da abstinência total como único tratamento abria uma brecha, e com ele a concepção mono fatorial da doença herdada, desde 1934, do discurso dos Alcoólicos anônimos;
- em matérias de toxicomanias, os estudos sobre os soldados americanos da Guerra do Vietname tiveram um efeito similar: se, para uma maioria, o fim da guerra e o retorno ao seu país foram o melhor tratamento da heroinomania, foi claramente porque a droga em si não era pura e simplesmente dotada de um poder diabólico; além da interação entre o indivíduo e a substância, era preciso dar também um lugar, não negligenciável, ao contexto, àquilo que Claude Olievenstein chamou o momento sociocultural;
- os estudos sobre os efeitos placebo do álcool (A. Marlatt) contribuíram também para demonstrar experimentalmente que os efeitos de uma droga, indiscutivelmente ligados à ação farmacológica, são, no entanto largamente modulados pela cultura, pela aprendizagem, pelas crenças dos utilizadores.
Estes novos questionamentos puderam favorecer os estudos das toxicomanias como carreiras, no sentido da sociologia interacionista: citemos, por exemplo: os de H. Becker sobre os fumadores de maconha. Mas o elemento mais essencial é evidentemente de ordem sociológica: o aparecimento das toxicomanias atuais, como fenômeno de juventude ligado aos movimentos contraculturais ( o movimento hippie na América, o de maio de 1968 na França), não poderia ser simplesmente considerado uma doença, mesmo que epidêmica.
A importância evidente do contexto, do quadro da sociedade e da cultura obriga-nos portanto a encarar a partir de agora as toxicomanias como um fenômeno complexo, “encontro de uma personalidade, de um produto e de um momento sociocultural”.
Ola amigo! Nao sou de ficar fazendo comentario, mas eu queria parabeniza-lo pelo otimo site que voce tem! Continue com esse otimo trabalho!
fevereiro 22nd, 2009 em 8:05 pm
Achei seu site hoje, pelo blogblogs, e gostei muito! Salvei seu site nos favoritos! Parab
abril 10th, 2009 em 10:49 am
Ok! Obrigado! Se possível indique a outros também!
Evander.
abril 10th, 2009 em 1:15 pm
Muito bom esse site…Parabéns…
maio 20th, 2009 em 11:20 pm
Boa Noite Raiane! Obrigado pelo incentivo e pela sua presença!
Abraços!
Evander.
maio 21st, 2009 em 12:46 am
Amei as suas publicações.
Parabéns.
Suas matérias são excelentes.
março 26th, 2010 em 12:27 pm
Obrigado Ana Paula! Tanto pela sua presença nomeu site quanto pelo seu incentivo!
Abraços!
Evander.
março 26th, 2010 em 1:00 pm