Histórico das Drogas parte 3

Publicado por evander, em agosto 7th, 2008

DOS PROGRESSOS DA MEDICINA ÀS DEPENDÊNCIAS ATUAIS

Desde Paracelso que o ópio ocupava um importante lugar na medicina, quando o inglês Sydenham introduz o láudano em 1660. Esta preparação retoma os grandes princípios do “específico anódino”, mas afasta os seus componentes inativos. Muitos são aqueles que vão, a partir daí, usar e abusar dele, embora a burguesia inglesa recorra ao “Pó de Dôver”, um remédio com uma forte dose de ópio, proposto nos primeiros anos do século XVIII.

A dependência do ópio vai-se desenvolvendo e em meados do século XIX existem casas de fumo semi-clandestinas em Paris, mas também nos grandes portos (Marselha, Bordèus, Sète, Toulon). A colonização da Indochina torna o ópio ainda mais acessível e, na alvorada do século XX, a França conta com milhares de locais onde se pode fumar com toda liberdade. Na Grã-Bretanha, os primeiros dependentes enchem-se de pílulas de ópio.

Veremos que o inglês Thomas de Quincey, autor em 1822 das célebres Confissões, pode ser considerado um dos primeiros dependentes modernos. Tal como conhecemos hoje, a dependência química é, ao mesmo tempo, a metamorfose de um empreendimento cultural, o fruto de pesquisas médicas e o objeto de tentativas de controle e de proibições.

Nesta época, o uso das plantas medicinais teve um grande impulso. Pinel trata das crises maníacas com o heléboro negro, o lúpulo serve de hipnótico, o meimendro era prescrito contra a eplepsia; a valeriana, a erva-cidreira e a peônia tinham igualmente seus usuários.

O fim do século XVIII acabou sendo marcado pela vontade de certos pesquisadores em purificar o ópio. Tenta-se tirar ainda mais proveito do suco da papoula: parece que Armand Seguin, em 1804, conseguiu extrair do ópio os famosos cristais incolores que não eram outra coisa senão a morfina; no entanto, a descoberta foi oficialmente atribuída a Friedrich William Sertürner. Em 1817 ele deu o nome de morphium (de Morfeu, deus do sono) ao produto que acabara de extrair da papoula. Este alcalóide não tem qualquer efeito quando é tomado por via oral, mas seria muito útil mais tarde para anestesiar os feridos e os doentes durante a guerra de 1870. Era então administrado na forma de injeção subcutânea, graças à seringa inventada por Charles Gabriel Pravaz (cirurgião veterinário, construiu uma seringa hipodérmica de metal, mas, apesar de seu uso para administração de algumas drogas, não era empregada para se obter a analgesia local).

A partir da morfina, o químico alemão Dreser sintetizou um novo produto ainda mais potente: a heroína, introduzida no mercado como medicamento em 1898.

A cocaína apareceu na Europa na mesma época. Era utilizada como anestésico desde 1860. As folhas de coca eram levadas do Peru por Karl Von Schnerzer revelaram o seu segredo ao químico alemão Albert Niemann em 1859. Na Europa, a cocaína suplantou o ópio e a morfina logo antes da guerra de 1914. Os médicos começaram a perceber o estado de dependência de alguns militares e, em breve, nos membros da alta sociedade. Paralelamente, as conquistas coloniais mediterrâneas da França parecem estar na origem da difusão do haxixe naquele país.

A proibição não provém simplesmente da verificação destes abusos: é tudo resultado de uma história complexa, e sem dúvida em primeiro lugar, um efeito paradoxal das guerras do ópio conduzidas pelos ocidentais contra a China, para obrigar a mesma a aceitar a importância do ópio produzido pelos colonos ingleses.

O ópio que os Chineses utilizavam há vários séculos na sua farmácia só se tornaria droga no fim do século XVII, época em que o abuso do tabaco se expandiu na China. Em 1729, a importação do ópio é interditada em todo o Império A Guerra do Ópio impõe aos Chineses a abertura ao comércio europeu de vários portos francos. A China tornou-se no século XIX o primeiro produtor mundial(30.000 ton.), passando à frente da Índia, Pérsia e Turquia.

Os EUA estiveram à frente das cruzadas proibicionistas, particularmente contra o uso do ópio importado pelos imigrantes chineses. A França regulamentou em 1889 o comércio de ópio na Cochinchina, em Tonquim e em Anan. No dia 30 de setembro de 1906 o Ministro das Colônias deciciu estudar as conseqüências financeiras da supressão da administração da cobrança do ópio. A venda do ópio foi proibida em 3 de outubro de 1908, levando quase ao desaparecimento das casas de fumo.

A luta contra a droga tornou-se uma preocupação para todos os governos. . A internacionalização da ação concretiza-se pela primeira vez em 1909: por convite dos EUA, treze países adotam resoluções que visam suprimir o uso de ópio e limitar o emprego de seus derivados a fins estritamente médicos. Foi instaurada uma Comissão Internacional do Ópio no decorrer de uma conferência que teve sede em Xangai.

As grandes leis de proibição serão, para os EUA, o Harrison Act (1914) e para a França a lei sobre os estupefacientes (1916). Criando entre as substâncias perigosas, a categoria de entorpecentes (totalmente proibidos ou cuja prescrição é muito controlada) visando tanto os consumidores quanto os médicos e farmacêuticos: ela marca uma fase no recuo da experimentação das drogas como meio de exploração, e não apenas como tratamento de doenças.

Assim, Jacques Moreau (dito Moreau de Tours), eminente psiquiatra aluno de Jean Esquirol, tinha prescrito haxixe a seus pacientes, no retorno de uma viagem ao Próximo Oriente, por volta de 1842. Ele pensava que, para lá dos seus efeitos terapêuticos, o cânhamo permitia uma “exploração em matéria de patologia mental”. Foi como intelectual que ele freqüentou o “Club dês haschichins”, fundado por Téophile Gautier no Hotem Pimodan, na ilha da Saint-louis. Este círculo de iniciados foi o ponto de encontro da elite das Letras e das Artes, na segunda metade do século XIX: além de Gautier, freqüentaram-no Alexandre Dumas, Charles Baudelaire e Eugène Delacroix.

No início do século XX, as drogas, o ópio e, em particular, o cânhamo, já não eram usados somente nos meios artísticos. Surgiu o aparecimento da cocaína que desde então não deixou de se proliferar. As pesquisas científicas trazem cada vez mais, com intervalos cada vez mais curtos, novos conhecimentos e novos produtos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando numerosos soldados usavam as anfetaminas, Albert Hoffman em 1943 descobre o ácido lisérgico (LSD) nas dependências do laboratório suíço Sandoz.

Tendo, inadvertidamente, absorvido este pó branco, Albert Hoffman efetuou a primeira viagem com o uso do LSD. Esta descoberta levou às pesquisas sobre o emprego de alucinógenos na terapêutica dos transtornos mentais. Mas a revolução farmacológica que houve na década de 50, após a descoberta (por Delay e Deniker) dos efeitos antipsicóticos da clorpromazina, pôs fim às pesquisas oficiais na matéria. A classificação das drogas torna-se daí em diante também à classificação dos medicamentos. Os medicamentos psicotrópicos dividiram-se em estimulantes ou calmantes (hipnóticos, sedativos, ansiolíticos, neurolépticos) e visam reduzir os sintomas ou as doenças, e não a explorar as faces ocultas do psiquismo. No entanto na década de 1960, Thimothy Leary, um jovem doutorado em Psicologia pela Universidade de Harvard, é seduzido pelas suas experiências alucinógenas devido ao uso do cogumelo mexicano. Ele então encontrou-se com Aldous Huxley, autor do “Admirável Mundo Novo”, que tinha antecipado neste livro o uso de drogas como tranqüilizantes. Timothy Leary e o seu aluno Richard Alpert vão trabalhar sobre os efeitos do LSD 25. Leary publica A Experiência Psicodélica, cujo êxito é fulminante. As primeiras comunidades hippies instalam-se em 1966 nas colinas de São Francisco e, a partir de 1967, os |EUA conhecem uma expansão epidêmica do uso de drogas.

A França sofreu a influência americana com atraso, o movimento hippie não teve grande influência naquele país. A epopéia mística que marcou o período hippie conheceu, no entanto, uma certa audiência e encontrou-se a caminho da Índia algumas centenas de franceses entre milhares de anglo-saxônicos. O “tempo das flores” vai bem longe quando, desiludidos com a experiência da viagem à Índia, os antigos hippies voltaram doentes, a maioria deles dependentes das drogas pesadas que tinham rejeitado antes da partida. Na França, o problema ganha amplitude; o Governo preocupa-se e a 31 de Dezembro de 1970 é publicada no Jornal Oficial a lei de referência sobre o uso e tráfico de entorpecentes. A internacionalização do tráfico e do consumo de drogas preocupa o mais alto nível dos responsáveis pela segurança pública e pela saúde, tanto que o uso dessas substâncias não se limitava mais a certas classes sociais.

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