Um dos momentos mais importantes da história da humanidade foi o cultivo doméstico de plantas: a descoberta da agricultura. Esse fato determinou o fim do período Paleolítico e inaugurou o Neolítico. Grupos de homens e mulheres não precisavam mais seguir rebanhos para caçar e começaram a construir cidades, onde se estabeleceram permanentemente. É o início da civilização.
Desde então uma série se espécies animais e vegetais passou a fazer parte da cultura humana, influenciando os modos e maneiras de homens e mulheres. Um bom exemplo disso é o arroz, cuja a importância no Oriente faz di imperador do Japão uma encarnação do deus Arroz. Outro é a vaca. Considerada sagrada na Índia por ser um símbolo da Mãe Terra, não pode ser sacrificada. Nesse universo, um vegetal que tem interagido com a humanidade desde o advento da agricultura é a Cannabis sativa, nome científico do cânhamo ou maconha. A planta era cultivada por conta das fibras, usadas para fazer cordas e tecidos, e também por suas propriedades alucinógenas e farmacológicas.
Provavelmente a cannabis é originária da China, onde foram feitos os primeiros registros sobre o alucinógeno. Ela é mencionada pela primeira vez numa farmacopéia produzida, aproximadamente, em 2740 a.C. Outras evidências apontam a Ásia Central como local de origem da maconha. Na China o cânhamo era mais usado na produção de fibras do que como entorpecente. Na Índia, porém, a maconha era cultuada como um presente dos deuses à humanidade, uma porta para o nirvana. Nesse país a Cannabis passou a ser usada em rituais religiosos, como continua até hoje. Um dos ítens imprescindíveis do hinduísmo, é fumada por gurus e sadhus em forma de haxixe ou consumida como bangha, dois preparados que aumentam suas propriedades entorpecentes. Shiva, divindade que incorpora a ruptura e a destruição que antecipa a reconstrução, é notório pelo consumo de bangha, em cuja fabricação investe grande parte do seu tempo.
Da Índia, a maconha alcanço o Oriente Médio. Embora não fosse usada em rituais religiosos, mas para recreação, mais uma vez a religião teve papel importante na divulgação da droga. Como o islamismo proíbe o álcool, a cannabis foi imediatamente adotada como principal alucinógeno pelos mulçumanos. Na verdade, foi aqui, pela primeira vez, que o uso da maconha em forma de haxixe, foi associado a atos hediondos, dando origem a palavra “assassino”.
No Irã, durante o século 11 viveu um xeique extremamente poderoso e determinado, Hassan bin Sabbah, o Velho da Montanha. Tinha esse apelido porque sua fortaleza, o Ninho da Águia, ficava no alto do Monte Alamut, uma montanha impenetrável. Sabbah nunca saía de sua fortaleza, mas sua influência política era incontestável. O Velho da Montanha era o fundador da Ordem dos Ismaelitas de Nizar. A ordem possuía uma disciplina militar rígida, tendo Sabbah no topo da hierarquia. Seus treinadíssimos soldados, os “anjos destruidores”, dedicavam obediência total a ele, a ponto de fazerem qualquer sacrifício, até mesmo suicídio. Essa fidelidade vinha de um irresistível recurso do qual Sabbah lançava mão: o seu Jardim Terreno das Delícias, isto é, um pedaço do paraíso na Terra. Lá, os soldados de Sabbah viviam entorpecidos de haxixe, alimentando-se de iguarias e dando vazão aos seus desejos com belíssimas escravas treinadas para o prazer. Segundo Sabbah, essa era apenas uma amostra do Céu que ele proporcionava a seus guerreiros. Se eles morresem defendendo a causa islâmica, isto é, as posições políticas de Sabbah, viveriam numa orgia de ninfetas e haxixe por toda a eternidade. O hábito de fumar haxixe levou os “anjos” de Hassan bin Sabbah a serem chamados de “haxixins”. Os cruzados, principalmente os Cavaleiros Templários, que tiveram contato próximo com os ismaelitas, corromperam o termo “assassino”, comum em português, francês, inglês, espanhol, italiano e em muitas outras línguas européias.
NO OCIDENTE
As invasões árabes dos séculos 9 a 12 introduziram a maconha no norte da África, do Egito até o leste da Tunísia, a Argélia e o Marrocos. Com as cruzadas (séculos 11 a 13), o uso das propriedades farmacológicas da maconha foi introduzido na Europa. Anteriormente os romanos usavam a planta para a fabricação de cordas e velas para embarcações, mas não como entorpecente. Preferiam, como os povos europeus em geral, o vinho ou outra bebida alcoólica. Mas, durante a Idade Média, a maconha foi reintroduzida no continente. Dessa vez, por conta das propriedades farmacológicas. Uma farmacopéia escrita no século 13 por monges escoceses indicava que a maconha era cultivada nas hortas dos mosteiros para ser utilizada como analgésico ou na fabricação de bebidas.
O papel cânhamo, durante a Era das Navegações, também foi relevante. Navios portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses dependiam das velas e cordas feitas a partir das fibras dessa planta, introduzindo a cultura da maconha nas respectivas colônias.
Na Europa, durante o Iluminismo, grupos de artistas e intelectuais começaram a usar a maconha como aluconógeno. O rito maçom dos Illuminatti, do qual o escritor alemão Goethe (1749-1832) era membro, fazia uso do haxixe para obter um estado “iluminado” de consciência. Ao longo do século 19 a maconha continuou a ser a droga da vanguarda européia.
Em 1845, o médico francês, J. J. Moreau de Tours e os escritores Gérard de Nerval e Téophile Gautier fundaram o clube dos haxixins, cujas atividades giravam em torno do haxixe. Artistas proeminentes participavam das reuniões do grupo. Baudelaire, Alexandre Dumas, Eugene Delacroix e Victor Hugo confirmavam a maconha como o sucedâneo dos intelectuais.
No final do século 19 e no início do 20, porém, algo determinante veio a ocorrer nos Estados Unidos: o Movimento da Temperança ganhava força política em todo país. Esse movimento de massa defendia a livre concorrência e culpava o álcool por todos os problemas sociais. Seus participantes que demonstravam forte oposição ao uso de alucinógenos, propuseram regulamentar seu consumo. Assim, os círculos conservadores americanos lideraram inúmeras campanhas contra o comércio de todos os psicotrópicos, inclusive o álcool. Era o chamado Proibicionismo que começava a se avultar e conseguiu impor a Lei Seca, que proibia o consumo e a venda de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos.
Na década de 1910, diversas substâncias alucinógenas, antes vendidas livremente em farmácias, foram proibidas dentro do território americano. Países da Europa e das Américas acompanharam essa tendência. No final da década de 1930, a cocaína e a maconha já estavam proibidas em vários países do mundo. As vendas de morfina passaram a ser rigorosamente controladas. Nos Estados Unidos o álcool foi pribido de 1920 a 1935.
Desde então, a maconha só era usada pelos imigrantes mexicanos pobres e por negros. No entanto, na década de 1950 a maconha voltou a ser associada à idéia de vanguarda e de contracultura. Durante o período pós-guerra, uma nova geração começava a questionar os valores do American Way of Life. Achavam que a sociedade americana falira, que seus ideais haviam sido corrompidos pelo cinismo e pela mentira. Eram poetas e escritores que caíam na estrada em busca de liberdade e de experiências verdadeiramente humanas. Ficaram conhecidos como geração Beatnick. Entre os Beats, como foram apelidados, o consumo de drogas, em especial a maconha, era um meio de contestar e de se libertar.
Essa tendência continuou nos anos 60, como a maconha mais uma vez foi escolhida como a droga-símbolo da contracultura. Como forma de se rebelar contra a guerra do Vietnã sem sofrer represálias, os jovens americanos começaram a se refugiar em comunidades. Lá alimentavam-se do que plantavam e defendiam o amor livre e o uso de drogas como uma forma de escapismo e contestação. Era a forma encontradas por esses hippies, que tinham a maconha como um símbolo, para sair do sistema.
Já no final dos anos 70, as estatísticas mostravam que a maconha era a droga ilícita mais consumida pelos estudantes de nível médio e universitário. A popularização do consumo fomentou a estruturação de um narcotráfico especializado na produção e distribuição da maconha, concentrado na América do Sul e países africanos. Em 1984, a Holanda optou pela liberação do comércio e do consumo de maconha e seus derivados. A planta passou a ser legalmente vendida em lugares específicos, os coffee shops.
NO BRASIL
Segundo Edward MacRae – doutor em Antropologia Social, professor-adjunto da FFCH/UFBA e pesquisador-associado da CETAD/UFBA – e Júlio Assis Simões (doutor em Antropologia pela UNICAMP, professor da USP, pesquisador do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo), ambos autores de diversos estudos sobre a maconha, “a cannabis parece ter sido, originalmente, introduzida no Brasil por africanos escravizados e, durante longo tempo, foi parte importante da cultura negra em vários estados do Norte e Nordeste”. A própria origem da palavra indica isso: “maconha” vem do termo quimbundo ma’kaña, que significa “erva santa”. Alguns historiadores chegam a afirmar que o uso da marijuana era tolerado pelos senhores, uma vez que mantinha os cativos calmos e alienados. Além disso, até o início do século 20 a maconha era considerada uma forma de medicamento para várias doenças, em vários países, inclusive o Brasil.
Em 1936, porém a maconha foi proibida em todo o país. As campanhas que se seguiram, “de cunho declaradamente racista”, de acordo com MacRae e Simões, rotulavam o costume de fumar maconha como “a vingança do derrotado” e sustentavam que a substância era uma ameaça ao povo brasileiro. E como o hábito era mais arraigado entre a população negra, “qualquer negro tornava-se suspeito de ser maconheiro ou traficante e portanto possível de ser revistado e detido”, garante J.C. Adiala em seu estudo O Problema da Maconha no Brasil: Ensaio sobre Racismo e Drogas (Instituto Universitário de pesquisas do Rio de Janeiro, 1986).
A partir das campanhas contra a maconha o usuário começou a ser visto como um marginal, ao mesmo tempo que a classe médica afirmava se tratar de uma doença mental. “Essas representações tiveram um efeito marcante na maneira pela qual o uso da maconha veio a ser percebido pela população”, explica B.C. Cavalcanti em sua dissertação de mestrado em Antropologia pela Universidade federal de Pernambuco, Dançadas e Bandeiras – um Estudo do Maconhismo Popular no Nordeste do Brasil.
Na década de 1970, durante o regime militar, houve uma nova onda de alarme, dessa vez associado ao uso de marijuana a jovens de classe média. Tratava-se de um grupo empenhado numa forte resistência cultural, levantando questões sobre temas relacionados à educação, ao emprego e à sexualidade. Assim foi aprovada em 1976 uma severa legislação sobre entorpecentes. Nessa época as drogas ilícitas mais usadas eram maconha e anfetaminas. Essa legislação continuou em vigor até agosto de 2006, quando foi substituída pela atual.
Hoje apesar dos riscos envolvidos na obtenção da maconha, seu uso recreativo é cada vez mais aceito entre alguns setores da classe média brasileira – mesmo por aqueles que não fumam.
Fonte: Revista Mundo em Foco.